P&R – A Conduta Ética no Budismo

P&R – A Conduta Ética no Budismo


P&R – A Conduta Ética no Budismo

Pergunta: O Budismo possui uma conduta moral (certo e errado) se sim, quais são ? se não, então pode fazer o que quiser ?

Lama Jigme Lhawang:

No budismo, para que possamos entender a conduta ou ação de um budista em seus vários níveis, é necessário que compreendamos a natureza vazia de uma fixidez e luminosamente criativa da realidade e de todos os fenômenos. Uma vez que tudo e todos não tem uma real existência da forma como aparecem à nossa percepção, qual seria a razão para nos restringirmos dentro de uma certa conduta ou padrão moral? Isto se dá porque operamos dentro de redes contextuais que emergem e operam dentro de referenciais que limitam e modulam nossos pensamentos, nossa energia e fala e o funcionamento de nosso corpo físico. Precisamos entender isso com clareza e profundidade. Dependendo dos referenciais pelos quais opero a conduta de outra pessoa pode ter a capacidade de perturbar minha omeostase ou equilíbrio sistêmico, ou seja, minha saúde física, energética e mental. Quanto mais desequilibrado estiver meu sistema mais reativo, explosivo e cego me encontrarei. Estes estados aflitivos não contribuem para uma saúde integral e para a iluminação de nossa vida.

A orientação do Buddha para desenvolver estados cada vez mais saudáveis, pacíficos e lúcidos se dá através de três treinamentos – O Treinamento em disciplina prescritiva, o treinamento no profundo equilíbrio meditativo e o treinamento em discernimento, lucidez e sabedoria. De acordo com o budismo, o desenvolvimento destes três treinamento é essencial para avançar na prática budista. Através da disciplina virtuosa, desenvolvemos mais facilmente a paz, a estabilidade e uma harmonia continua, um profundo e lúcido equiíbrio meditativo. Através desta estabilidade meditativa, nossa mente se torna mais aberta, maleável e consciente, facilitando o desenvolvimento do discernimento e sabedoria. Por sua vez, através do discernimento saberemos que disciplinas prescritivas adotar para nosso desenvolvimento e que condutas evitar, ações prejudiciais que devem ser abandonadas.

No que se refere ao treinamento na disciplina prescritiva, o Buddha orientou uma série de restrições e diretrizes de conduta para diferentes categorias de praticantes e distintos grupos de seguidores, de acordo com o contexto e capacidades de cada um ou de cada grupo. Estas foram classificadas posteriormente em três categorias: 1. Para aqueles de capacidade menor, também dito como pertencente a um nível externo de prática 2. Para aqueles de capacidade mediana, também dito como pertencente a um nível interno de prática e 3. Para aqueles de capacidade maior, também referido como pertencente a um nível secreto de prática.

Para os seres de menor capacidade a orientação que Buddha deu foi a de se abster e se restringir a tudo que seja contextualmente maléfico, perturbador e imoral. Isto significa que estes seguidores deveriam se comportar seguindo regras de conduta claramente inspiradoras e não cometer nada que causasse qualquer mal-estar para si e para os outros. Deveriam se abster de atitudes que fossem como um veneno maléfico. Por exemplo, determinada pessoa me tira do eixo, portanto, é melhor evitá-la, me distanciar daquilo que causa desequilíbrio.

Jà para seguidores de uma capacidade mediana, uma uma certa realização interna que revelou a eles que por de trás do movimento externo há sempre um panorama interno e, se esta perspectiva interna fosse transformada, o que aparece fora passa a ter um outro sentido, o Buddha ofereceu orientações de técnicas que eram capazes de remediar o que aparentemente seria negativo em algo positivo. Por exemplo, determinada situação externa me causa grande raiva. Eu não preciso evitar a situação para que não tenha raiva, mas posso usá-la como uma forma de desenvolver compaixão e discernimento. Assim, através do cultivo da compaixão e do discernimento a situação externa é compreendida e a raiva é neutralizada. Aqui a analogia é a de que, com as técnicas apropriadas, podemos neutralizar o veneno, não precisamos evitá-lo, pois sabemos como remediá-lo.

Para os seguidores de maior capacidade, que acessaram um nível secreto de experiência espiritual, há a capacidade reconhecer que toda e qualquer experiência não é nada mais do que uma experiência mental. E, devido a sua realização sobre a natureza da própria mente e de suas expressões, toda e qualquer experiência, situação ou fenômeno não é nada mais do que esta natureza básica que tudo permeia, espaçosa e luminosa e livre da dualidade do positivo e do negativo. Estes seguidores detentores de uma prática espiritual muito avançada e, portanto, mais rara, são capazes de extrair o princípio ativo do veneno pois conhecem sua essência, sabem como identificá-la e como usufruir de seu poder. No caso do veneno da inveja, por exemplo, haverá a capacidade de identificá-lo como uma demonstração inconsciente da realidade de tudo surge, permanece e se vai como é para ser – a sabedoria da causalidade, uma inteligência que reconhece como tudo se realiza.

Entretanto, precisamos desenvolver estas capacidades e também estarmos sensíveis aos contextos nos quais vivemos, contextos estes culturais, sociais, familiares bem como contextos internos de nossas próprias capacidades e pré-disposições psicofísicas.

No Dhammapada, o Buddha diz: “Como um comerciante transportando grande riqueza emu ma pequena caravana evita uma estrada perigosa. Como alguém que ama a vida evita o veneno. Assim, você deve evitar más ações.”

A orientação geral que Buddha ofereceu e que engloba todos estes níveis de prática, a partir de uma perspectiva de não se envenenar ou de uma intenção de não envenenar os outros, encontra-se em seu primeiro ensinamento após seu despertar – No Sutra do Girar a Roda do Dharma -, onde o Buddha expõe as Quatro Nobres Verdades. Na quarta verdade, o Buddha fala do caminho natural ao despertar compost de oito ramos que se interconectam. O Segundo, terceiro e quarto ramo tratam essencialmente do que o Buddha chamou das Dez Invirtudes e seus opostos e que ele nomeou como o ramo da intenção, fala e ação apropriadas:

– As três condutas a nível de corpo: Não matar, mas salvar e proteger vidas. Não roubar, mas praticar o oferecimento e a generosidade. Evitar ter uma conduta sexual inapropriada, exercendo uma sexualidade que seja benéfica e que não traga nenhum sofrimento para ambos.
– As quatro condutas a nível de fala: Não mentir, mas ser sincero e falar a verdade. Evitar uma fala maliciosa, não difamar,  fofocar ou causar discórdia, mas ter uma fala que gere união e reconciliação, nutra a harmonia e que eleve os outros. Evitar a fala áspera, grosseira e abusiva e em seu lugar praticar uma fala amável e gentil, que conforte e pacifique os outros. Evitar a fala inútil, frívola e ociosa, que toma o tempo e energia dos outros sem resultar em nada de positivo. No lugar disto, exercemos uma fala moderada, que traga verdadeiro sentido, que ecoe boas qualidades e que resulte em boas coisas.
– As três condutas a nível de mente: Evitar a cobiça e a avareza e em seu lugar exercer um estado de mente aberto, flexível e generoso. Evitar a má vontade e pensamentos maléficos e, sem seu lugar, desejar o bem dos outros seres. Evitar visões errôneas, que não estejam de acordo com como as coisas realmente são e, em seu lugar, cultivar uma visão apropriada, profunda e clara da realidade.

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