Artigo | Os dragões do despertar

Artigo | Os dragões do despertar


“Os Dragões legendários são estranhamente semelhantes a criaturas reais que viveram no passado. Eles são muito parecidos com os grandes répteis ou dinossauros que habitaram a Terra muito antes do homem supostamente ter aparecido na Terra.” (Knox, Wilson, ‘Dragon’, The World Book Encyclopedia, vol. 5, 1973, p. 265.)

Encontramos a menção do animal mitológico dragão tanto na literatura oriental quanto na literatura ocidental, em praticamente todas as culturas e tempos. Uma vez que o termo ‘dinossauro’ foi cunhado somente em 1842 por Richard Owen, surge a curiosidade: Como estes seres eram chamados antes de serem ‘dinossauros’ ?

Em torno de 300 d.C., em Sichuan, na China, o chinês Chang Qu descobriu ossos de dinossauros abaixo da terra e os documentou como sendo uma “descoberta de ossos de dragões”. (Dong Zhiming (1992). Dinosaurian Faunas of China. China Ocean Press, Beijing.)

Curiosamente, o termo atual para ‘dinossauro’ na língua chinesa é konglong, que significa ‘terrível dragão’ (BBC News. 2007-07-06) como também meilong, significando ‘dragão adormecido’. (Xu and Norell, 2004.)  De forma similar, Richard Owen ao cunhar o termo ‘dinosauria’ em 1842, o definiu como “terrível lagarto gigante”.

No Budismo Tibetano o dragão é tanto o veículo do Dhyani Buddha Vairotchana, o Buddha da Sabedoria última como também o veículo de Vajradhara, o Buddha Primordial. É também um dos emblemas de uma das linhagens do Budismo Tibetano provindas a partir do grande marra-siddha indiano Naropa e fundada pelo grande siddha tibetano Tsangpa Gyare Yeshe Dorje – a Linhagem Drukpa.

O Dragões na Linhagem Drukpa

S.S. Gyalwang Drukpa, o líder e autoridade máxima da Linhagem Drukpa, a décima segunda reencarnação do fundador da linhagem Tsangpa Gyare Yeshe Dorje, nos explica as origens e o significado espiritual dos Dragões da seguinte forma:

“No continente Asiático, acreditamos que o Dragão seja um símbolo de ‘energia’, de ‘energia positiva’. Cremos que seja um tipo de energia que se manifesta na forma de um dragão.  Acreditamos, ainda, que seja dotado do poder de criar e de se movimentar através de vários diferentes tipos de elementos da natureza. Seu campo de poder estende-se a fim de nutrir e potencializar as colheitas, árvores, plantas e assim por diante. Em outras palavras, no verão, por exemplo, ele se manifesta na forma de trovões,  presenteando-nos com a chuva, com a água, proporcionando que as coisas tomem nascimento,  cresçam e floresçam. Desta forma, em nossa tradição espiritual, o dragão simboliza energia. Na ausência de energia, os seres e as coisas não existiriam, as pessoas não sobreviveriam. Portanto, para a nossa linhagem espiritual, o dragão é TUDO e a partir dele TUDO se manifesta.”

“Tsangpa Gyare, o fundador da tradição espiritual dos Dragões, a Linhagem Drukpa, cuja existência foi prevista anteriormente por Dakinis (seres espirituais altamente realizados de gênero feminino), enquanto procurava uma região adequada para a construção de um local apropriado para difundir os ensinamentos de sua linhagem sagrada, encontrou-se com nove dragões deitados em uma determinada região no Tibete. Diante de seus olhos, tais auspiciosas criaturas levantaram  vôo ao céu seguido dos rugidos estrondorosos de trovões que perduraram por um longo tempo.

A partir desta visão, naquele momento e naquele lugar sagrados, tomando este evento como de grande e profundo significado, Tsangpa Gyare decidiu construir seu mosteiro. Desta forma, o primeiro mosteiro da Linhagem Drukpa – NamDruk Sewa Jangchub Ling (A Morada da Iluminação dos Dragões Celestes), foi construído, localizado não muito distante de Lhasa, a capital do Tibete. Acredito que a primeira associação do dragão com a nossa linhagem  provém deste notável incidente. A partir disto, tornou-se natural para os seguidores desta linhagem, como também seus detentores e a própria linhagem em si, serem chamados de ‘Drukpa’ ou ‘Druk’, que, em tibetano, significa dragão. O dragão é supostamente uma criatura celestial muito auspiciosa e importante em nossa cultura asiática. Até mesmo o país do Butão veio a ser chamado de ‘Druk’ ou ‘Druk Yul’, ou seja, a Terra dos Dragões, devido à  influência da Linhagem Drukpa neste país, desde tempos remotos até os dias de hoje. Consequentemente, o próprio povo do Butão refere-se a si próprio como ‘Drukpa’, significando o “povo da terra dos dragões”, nos conta S.S. Gyalwang Drukpa.

A Natureza dos Dragões na Tradição Asiática

Encontramos na tradição budista um protótipo de dragão benevolente – uma corporificação de qualidades divinas  tais como energia, sabedoria, poder, proteção, providência e fertilidade.

Sua forma exterior combina características de um peixe (representado nos bigodes de carpa e no corpo escamoso), réptil (representado em seu corpo de serpente) e de um pássaro (representado nas garras de águia),  dotando-o da habilidade de movimentar-se pelas águas, andar pela terra e voar pelos céus.

Nas águas, ele entra em contato com um mundo desconhecido dos humanos e torna-se uma fonte de fertilidade, adaptação e flexibilidade. Ao movimentar-se na terra, torna-se um conhecedor e detentor de grande riqueza, abundância, estabilidade e prosperidade. Nos céus, de onde percebe tudo e  todos em grande profundidade e amplidão, torna-se uma fonte de sabedoria, equanimidade, liberdade e transcendência. Sua corcunda configura-se tal como uma cordilheira de montanhas representando magnificiência, força e poder. Em sua mão ele segura a ‘Jóia da Auspiciosidade’ significando o coração da iluminação e a mente de sabedoria que tudo realiza.

Seu estrondoroso rugido tal como o de um forte trovão,  desperta-nos do sono da ignorância. O fogo, que expele por sua boca, expressa a bondade amorosa e sabedoria que queimam as causas de toda insatisfatoriedade, mal-estar e sofrimento – a ilusão de uma realidade inerente, permanente e  independente nas coisas, pessoas e no mundo – manifesta-se como uma energia protetora, uma ira sábia, que repele maus espíritos e influências negativas  além de proteger aqueles dotados de virtude e de um coração bondoso.

Portanto, aqueles nascidos no ano do dragão (um dos 12 ciclos de animais dos calendários chinês e tibetano) são  destinados a desfrutarem de saúde, riqueza e uma vida longa.

Origens na tradição Asiática

O Dragão da tradição Indiana

Na literatura Indiana conta-se que Indra, o rei dos deuses indianos (skt. deva), matou Vritra, o dragão da água, golpeando-o com seu bastão espiritual. No grande épico indiano Mahabharata, osnāgas ou dragões são descritos como possuindo traços de cobras como também de humanos.

Posteriormente, na literatura budista, encontramos menções sobre dragões em alguns sutras, principalmente sobre os ‘reis dragões’. O termo dragão encontrado nestes sutras geralmente foi uma tradução do sânscrito nāga, onde o seu rei era considerado um grande nāga ou um  dragão.

No Sutra das Dez Formas Positivas de Ações:

“Assim eu ouvi. Uma vez, o Buda estava no Palácio do Rei Dragão do Oceano, junto com uma assembléia de oito mil destacados monges e trinta e dois mil Bodhisattvas Mahasattvas. Dirigindo-se ao Rei Dragão, o Buda disse: Devido a que todos os seres têm diferentes estados de consciência e pensamentos, esses também realizam diferentes ações e como consequência há o constante retorno nos diferentes caminhos da existência. Oh, Rei Dragão! Por isso tu vês a variedade de formas e aparências nesta assembleia e no Grande Oceano, embora não sejam diferentes umas das outras…” (Tripitaka Chinês #600)

No Sutra do Grande Dragão Krkala:

“Assim eu ouvi. Certa vez, o Buddha estava na grande cidade Rajagriha. Naquela ocasião, o Bodhisatva Ratnaketu Dharani indagou o Buddha: Por quê o grande dragão Krkala engole uma espada afiada e envolve suas pernas ao redor de uma espada?…” (Taisho Tripitaka 1206)

No sutra do Lótus, encontramos uma assembléia de dragões presenciando os ensinamentos do Budha na seguinte passagem:

“Assim eu ouvi: Certa época, estava Buda em Rajagriha, no monte Gridhrakuta. A acompanhá-lo estava uma multidão de monges em número de doze mil…Aí estavam oito reis dragões, o rei dragão Nanda, o rei dragão Upananda, o rei dragão Sagara, o rei dragão Vasuki, o rei dragão Takshaka, o rei dragão Anavatapta, o dragão Manasvin, o rei dragão Uptalaka, cada um com várias centenas de milhares de seguidores…” (Lótus Sutra, cap. 1: Introdução)

“…Então Manjushri, sentando sobre um lótus de mil pétalas, tão imenso quanto uma roda de carroça, acompanhado dos Bodhisattvas que o seguiam, também sentados em lótus de jóias, espontaneamente emergiu do Grande Oceano do Palácio do Dragão Sagara…”(Lótus Sutra, cap. 12: Devadatta)

“…Sabedoria Acumulada indagou a Manjushri: “Este Sutra é extremamente profundo e sutil. Em meio a todos os outros Sutras, ele é uma jóia raramente encontrada no mundo. Existe algum ser vivente que possa, através da diligência e vigor, cultivar este Sutra e rapidamente atingir o Estado de Buda”? Manjushri disse: “Existe uma filha do Rei Dragão que tem apenas oito anos de idade. Ela possui as faculdades, condutas e Karmas dos seres viventes e obteve Dharanis. Ela está apta a receber e ostentar repositórios inteiros de segredos extremamente profundos pregados pelo Buda…” (Lótus Sutra, cap. 12: Devadatta)

Também, um dos principais discípulos do Buddha recuperou sutras que haviam sido escondidos no palácio do rei dos Oceanos, no fundo do mar. Conta-se que para obter os textos de volta ele domou o dragão nāga guardião do palácio, e retornou os sutras a terra. Devido a este evento, o monge passou a ser chamado de o grande Arhat Nantimitolo.

Outro entre os maiores discípulos do Buddha, o Arhat Panthaka, dotado de diversos poderes espirituais ou siddhis, foi convocado pelo Buddha para uma expedição que teria como objetivo subjugar e converter o terrível dragão rei Apulala. Devido a este evento, o Arhat Panthaka é frequentemente retratado nas imagens budistas com um dragão nāga dentro de sua tigela de mendicância.

Nos registros históricos de dois renomados monges budistas e peregrinos chineses, Ven. Fa Hsien (394-414 CE) e 200 anos depois, Ven. Hsuan Chuang, peregrinaram a Sankashya, um dos oito lugares mais sagrados do budismo na Índia, que se refere a passagens da vida do Buddha Shakyamuni. Conta-se que, neste local, Buddha descendeu do reino celestial Tushita, onde ensinava sua mãe e aos deuses que lá viviam, considerado a terra onde todos os Buddhas do passado e do futuro desempenharam o mesmo extraordinário feito.

Lá, nativos da região, contaram a ambos os peregrinos que ali, um dragão de asas brancas, que habitava  próximo ao mosteiro,  protegia em torno de 1.000 monges e monjas. Este dragão defendia e atendia as necessidades do mosteiro e de toda a região que o circundava. Mais especificamente, os registros de viagem do monge chinês Fa Hsien claramente apontavam a característica de uma abundante natureza e produtividade nesta região onde tal dragão residia. Apontavam, também, grande prosperidade e alegria entre a populacão que ali vivia.

No budismo tântrico indiano, o vajrayana ou mantrayana secreto, o dragão é o veículo de Vairotchana, um dos cinco Dhyani Buddhas, considerado como o Buddha de cor branca da direção leste ou central como também o veículo de Vajradhara, uma representação do Buddha Primordial.

O Dragão na tradição chinesa

Como visto anteriormente, na literatura Indiana encontramos a imagem do dragão através do termo sânscrito “vritra”. Anterior à chegada do budismo na China no século III, os dragões já estavam presentes na cultura chinesa e eram chamados de “long”. Curiosamente, na medida em que o budismo foi chegando  à  China, encontramos a tradução chinesa long ou dragão, não como uma tradução de seu equivalente  sânscrito “vritra”, mas da palavra “nāga”, ou seja, um tipo especial de cobra provindo de um antigo culto indiano, onde são considerados  seres da natureza relacionados com o poder de fazer chover, com a fertilidade e proteção das águas como também guardadores de tesouros.

Na China, o culto para com os dragões é datado de mais de 7.000 anos, unindo, posteriormente, com a chegada do budismo, o significado dos nāgas provindos da tradição Indiana quando, então, o dragão foi tomado como o rei dos nāgas. Nessa tradição, simboliza a sabedoria divina revestida do poder indomável da natureza. Ou seja, a harmonia entre os atributos espirituais e naturais que formam todas as coisas. São tidos como criaturas celestiais , incrivelmente auspiciosos e que exercem o controle sobre as forças da natureza.

Uma das primeiras imagens do dragão chinês aparece em um entalhe neolítico datado aproximadamente de 5.000 anos antes de Cristo. Disto, é considerado uma das mais antigas representações simbólicas da humanidade. A mais antiga descrição escrita do dragão chinês encontra-se no I Ching, o “Livro das Mutações”.

No I Ching ele aparece como o princípio masculino yang, representando a  transformação, energia criativa e assim por diante. É um símbolo de uma força dinâmica eletrizante que se manifeta através de relâmpagos e trovões. No inverno, esta energia toma retiro dentro da terra. No início do verão torna-se ativa novamente, surgindo no céu como trovões e relâmpagos. Como resultado, as forças criativas do universo avivam-se novamente, nutrindo os vários elementos da natureza.

O dragão, segundo a mitologia chinesa antiga, foi um dos quatro animais sagrados convocados por Pan ku (criador do universo) para participar da criação do mundo. Representa a energia do fogo que destrói, permitindo o nascimento do novo – a transformação. Para muitos é o deus das chuvas, representando o potencial de fazer chover e do fluir das águas. Acredita-se que os dragões possam criar nuvens com sua respiração. Simboliza também a sabedoria e o império.

A essência da vida (energia vital) representada pelo hálito celestial dos dragões é chamada em chinês de sheng chi, que literalmente significa ‘sopro cósmico’. Ela é a fonte de toda a energia que contribui para com a fertilidade e riqueza tal como as mudanças climáticas que proporcionam a estação das chuvas, o calor do sol, brisas refrescantes e aromáticas  que, por sua vez, propiciam um solo fértil e as colheitas florescerem em grande diversidade e abundância. Assim, torna-se uma representação da essência e natureza do universo.

É interessante notar que o dragão é mundialmente reconhecido como um símbolo da cultura chinesa e de seu povo. Os chineses referem a si próprios como ‘Lung-tik Chuan-ren’, que significa os “Descendentes do Dragão.” Sua tradição acredita que, em algumas raras ocasiões, os dragões demonstram o poder de transformar si próprios em elegantes seres humanos, homens ou mulheres, podendo até mesmo, vir a casar-se com outras pessoas. Por exemplo, Yu Pang, um camponês que ascendeu ao mais elevado posto em seu país e governou a China como seu imperador, para que pudesse legitimar sua ascensão nunca vista antes, foi o primeiro a clamar ter a descendência familiar de um dragão. Desde então, o epíteto ‘face-de-dragão’ passou a ser usado para referir-se ao imperador. No Japão, onde muitos dos costumes provêm ou se assimilam aos da cultura chinesa, o imperador japonês Hirohito (1940) alegou ser descendente da princesa ‘Jóia Frutuosa’, filha do ‘Dragão-rei dos Oceanos’. Este é o significado raíz por de trás do emblema ou brasão encontrado em residências régias na China e Japão.

Portanto, temos a representação da face de um dragão como um dos principais símbolos imperiais ainda que outros tipos de emblemas com dragões também fossem usados por ministros e representantes dos emperadores chineses. Nota-se que somente o símbolo de dragões com cinco dedos representavam o imperador e seu império. Dragões com quatro, eram símbolos da nobreza imperial e oficiais de alto escalão e os com três dedos eram usados para com pessoas de cargos menores e a população em geral.

Na tradição chinesa os dragões algumas vezes são categorizados como quatro ou nove tipos principais.

Os quatro tipos principais do dragão chinês:

  1. t’ien long – Dragões Celestes, que exercem a função de dar suporte ao palácio celeste dos deuses e são considerados como os soberanos entre os dragões.
  2. Shen long – Dragões Espirituais, os quais controlam as nuvens e fazem chover.
  3. Ti long – Dragões da Terra, que desempenham a função de controlar os rios e oceanos.
  4. Fu ts’ang long – Dragões Guardiões de Tesouros, os quais têm a função de proteger jóias objetos preciosos.

Os outros cinco restantes formando nove tipos principais:

  1. Ying long – Dragões Alados, associados com chuvas torrenciais e dilúvios.
  2. Jia long – Dragões escamosos, destituídos de chifres e coberto de escamas, líder de todos os animais aquáticos.
  3. Pan long – Dragões Espiralados, que residem nos lagos e não ascenderam aos reinos celestiais.
  4. Huang long – Dragões amarelos, sem chifres conhecidos por sua sabedoria e por simbolizarem o imperador.
  5. Long wang – Dragões Reis, governantes dos quatro mares: do leste, do sul, do oeste, e do norte.

O Dragão na tradição tibetana

No Tibete, os dragões foram chamados de ‘druk’ sendo considerados como a fonte daquilo que conhecemos em nossa língua como ‘trovão’. Trovão foi chamado pelos tibetanos de ‘druk dra’, que literalmente significa o ‘som do  trovão, considerado por eles como sendo o próprio ‘rugido dos dragões’(druk kê em tibetano). Tal como o trovão, a mente desperta do dragão nos acorda, explodindo a bolha da mente conceitual, libertando-nos de toda insegurança, medo, dúvida e expectativas.

O Dragão simboliza os grandes e sábios imperadores como também os poderosos e inabaláveis mestres espirituais. Representa a sabedoria que vê a realidade lúdica de todas as coisas e o poder e confiança presentes naturalmente nesta realização. A mente do dragão é vasta, poderosa e hábil devido a reconhecer a natureza vazia, porém magicamente aparente de todas as coisas. Sem projetar e cristalizar uma existência inerente, real, nas coisas e pessoas, o dragão dança e brinca em meio a interdependência de todas as manifestações. Esta visão é chamada em sânscrito de prajna paramita, que literalmente, significa ‘o excelente conhecer transcendental’, um discernimento preciso, profundo e amplo, de onde surge a natural presença, poder e confiança do dragão.

No budismo tibetano, entre os cinco elementos – espaço, ar, fogo, água e terra – , o dragão representa o elemento espaço. Portanto, da mesma forma que o espaço não pode ser concebido ou investigado como um objeto, a mente do dragão é insondável. Sua natureza vai além dos limites de espaço geográfico, tempo, nome e forma. Nossa mente é da natureza do dragão. Tal como o seu  hálito quente, nossa essência esta impregnada desta verdade, esta constantente se expressando e nos revelando quem realmente somos.

Na tradição tibetana encontramos uma relação de proximidade entre cobras, serpentes, crocodilos, dragões, caranguejos, sapos e outros répteis. Estes animais ainda que não sejam necessariamente o que a tradição asiática chama de nāgas, podem vir a ser considerados diferentes classes de nāgas dependendo de suas characterísticas psico-energéticas.

No budismo tibetano nāgas são geralmente tomados como seres hostis que, ainda que possam se tornar protetores de mestres e ensinamentos como também guardadores de tesoursos do Dharma, são seres que geralmente residem sob as águas e em seus arredores, e causam doenças e infortúnios, principalmente quando ameaçados ou prejudicados por influências humanas. Em contrapartida, os dragões no budismo tibetano são símbolos de energia positiva, auspiciosidade, iluminação e de poder espiritual.

Portanto, encontramos essa relação próxima entre os dragões e os nāgas onde muitas vezes o dragão é considerado uma classe de nāga ou o nāga como uma forma de dragão, aparecendo frequentemente em diversos símbolos do budismo tibetano.

No Tibete há templos dedicados especificamente aos nāgas. Nestes templos, encontramos diversos tipos de répteis considerados como sendo classes de nāgas, incluindo dragões.

Na tradição tibetana, o estandarte do dragão de turquesa significa o som da compaixão que nos desperta da ilusão e aumenta aquilo que podemos conhecer por meio da audição através de seu completo poder de comunicação. É dito nos proteger contra todos os tipos de discórdia, principalmente contra a calúnia, fofocas e o uso indevido da fala.

Os dragões nāgas muitas vezes, aparecem em instrumentos musicais tibetanos, usados como oferenda de som na tradição budista como também em amuletos de proteção. São frequentemente encontrados na arquitetura himalaica em pilares, nos beirais do telhado de templos budistas, na base de monumentos e pontes com a função de proteger contra incêndios e terremotos. A imagem de sua face (skt. mukha) é geralmente usada como um símbolo protetor. Por exemplo, dois pontos simbolizando olhos ou um desenho sinuoso usado para enquadrar os cantos dos fólios das escrituras budistas em língua tibetana têm suas origens nestes protetores dragões nāgas.

Na tradição tibetana, dragões são considerados capazes de mudar de tamanho. De acordo com alguns lamas tibetanos, os dragões nāgas, quando pequenos, podem causar pequenas goteiras tais como água pingando em beirais de telhados ou umidade em tetos e paredes. Em algumas ocasiões tais como em transmissões e ensinamentos do Dharma, o surgimento inesperado de vazamentos de água são tomados como a aprovação destes dragões nāgas e, consequentemente, considerados como um sinal auspicioso.

Entretanto, o dragão é mais comumente conhecido na tradição tibetana como um dos quatro animais das célebres bandeiras de oração chamadas “Cavalo de Vento”(do tibetano Lungta). O cavalo de vento possibilita variados níveis de interpretação: a partir de uma  percepção externa, é uma ou figura tibetana mítica.  A partir de uma percepção interna, representa energia vital ou energia positiva, sendo considerado um símbolo de boa sorte.  A partir de uma percepção secreta, representa, entre os cinco elementos da natureza, o elemento espaço. De uma percepção ainda mais secreta, representa o elemento ar interno ou a energia que corre dentro de nosso corpo como também, os vários aspectos do caminho budista.

Os quatro animais – dragão, tigre, garuda e o leão da neve -, nos cantos da bandeira, simbolizam as “Quatro Dignidades”, qualidades espirituais que os Bodhisatvas (ou Guerreiros/Heróis Espirituais) desenvolvem no caminho à iluminação como também os quatro tipos de confiança dos grandes monarcas universais.

Nos ensinamentos de Shambala, onde estas quatro dignidades são extensamente explicadas, o dragão carrega consigo as qualidades dinâmicas da natureza como também a mudança do tempo e estações do ano. Identifica-se com a mente além do ego, transcendendo nossas fixações e visões do mundo como o concebemos.

Em seu Terma de Shambala, um dos grandes representantes atuais da tradição dos yôguis de louca sabedoria presente até hoje, Vidyadhara Chogyam Trungpa Rinpoche, nos explica que o dragão simboliza o ‘estado de inescrutabilidade’. Este estado surge na base da realização do não-eu. A partir desta profunda experiência, verdadeiro destemor é alcançado. Devido a não haver mais medo, dúvida e esperança, surgem naturalmente bondade, gentileza, simpatia e bom humor, além de qualquer compromisso ou expectativas. Tornamo-nos genuínos, corporificações da verdade. A artificialidade dá lugar  à verdade, honestidade, naturalidade e espontaneidade. Não há mais a necessidade de ‘falar a verdade’, no sentido da minha verdade e da sua verdade, pois transformamos a nós mesmos nessa verdade, tornamo-nos exemplos vivos disto. A verdade não é limitada à visão de alguém, não é propriedade de ninguém. Simplesmente, é o que é.  Ser a presença viva da verdade é mais importante do que a verdade em si própria. Surgem energia e poder inabaláveis. Confiança incondicional toma nascimento através das qualidades de uma dignidade natural, de uma firmeza leve e relaxada, aberta e destemida, desperta e inteligente.

S.S. Gyalwang Drukpa nos ensina que pertencemos à tradição profunda dos grandes yôguis de ‘Louca Sabedoria’ (do tibetano yêshe chôl ua, literalmente sabedoria selvagem), representados através dos antigos mestres da Linhagem Drukpa – Drukpa Kunley, Tsangnyong Heruka e Unyon Kunga Zangpo. Entretanto, por louca sabedoria, diz Sua Santidade, “não se entende fazer o que der na telha, mas sim a expressão natural e espontânea provinda de um verdadeiro e completo destemor. A maioria de vocês foi espiritualmente batizado com o ‘sobrenome’ Jigme, ou seja, destemor. O destemor é a essência dos yôguis dragões e o principal fruto natural da prática dos mestres de louca sabedoria. Nós somos detentores desta tradição dos grandes yôguis de louca sabedoria. Entretanto, para que possamos verdadeiramente preservar esta tradição viva, precisamos realizar o verdadeiro destemor.”

Escrito aos arredores da grande estupa sagrada de Djarung Khashor como auto-estudo e contemplação e para o benefício daqueles que como eu aspiram um dia, tornarem-se verdadeiros yôguis dragões.

– Lama Jigme Lhawang
Boudhanath, Kathmandu, Nepal.
1o. mês do ano de 2013.