Ensinamento de Jetsunma Tenzin Palmo em Recife, 2014

Ensinamento de Jetsunma Tenzin Palmo em Recife, 2014


Celebrando com alegria o retorno dessa grande mestra ao Brasil, iremos veicular durante as próximas semanas uma revisita aos ensinamentos concedidos por Jetsunma Tenzin Palmo em sua primeira passagem pelo país. Que todos os seres possam se beneficiar!

 

TRANSCRIÇÃO – Jetsunma Tenzin Palmo no Brasil | Ensinamento #1: introdução ao budismo e à felicidade genuína

 (https://www.youtube.com/watch?v=YbwPeYPel5s)

Boa noite à todos. Acho que essa noite eu deveria fazer uma introdução ao budismo. Quantos de vocês não sabem nada de budismo? Quantos de vocês sabem bastante sobre budismo? Basicamente, budismo, ou o dharma, se ocupa de como podemos transformar nossa mente comum, neurótica e distraída em uma mente que é sã e dedicada ao benefício de outros, não só totalmente ocupada de nosso próprio benefício.

Presumo que todos saibam quem o Buda foi; ele foi um príncipe que abandonou seu palácio para buscar pelo sentido da vida, o qual ele então encontrou, com a iluminação, depois de seis anos de procura. O ponto é que, uma vez obtida a iluminação, ele estava muitíssimo feliz; não obstante, quando ele deu seu primeiro ensinamento, ele não falou sobre bem-aventurança, luz e amor. Ele falou sobre a natureza insatisfatória da existência humana normal: sobre o nosso sofrimento.

O Buda começou seus ensinamentos com o fato de que, em nosso estado de vida normal, nós não estamos imersos em felicidade; adoraríamos estar e, apesar de nossos esforços para nos tornarmos felizes e plenos, a maior parte das pessoas termina por sentir-se frustrada, descontente e profundamente insatisfeita. A sua pergunta, então, foi: se esse é um sentimento tão universal, qual é a causa disso? Se despendemos tantos esforços para nos sentirmos bem, por que é que acabamos por nos sentir tão mal?

Esse foi o ponto de partida do dharma. Por dentro, sentimos que algo ainda não está alinhado e não importa o quanto queiramos nos sentir bem com nós mesmos, ainda assim nos sentimos frustrados e insatisfeitos. Assim, o ponto de partida do dharma é o do Buda tal como um médico dizendo: “veja bem, você está doente. Tem algo gravemente errado por aqui.” É claro que se ele tivesse parado aí e dissesse “Ok, desculpe, mas é incurável. É melhor você apenas suportar”, aí sim o budismo poderia ser considerado uma religião muito pessimista. Porém, como sabemos, o Buda foi muito mais compassivo e sábio do que isso. Ele disse “Sim, você está doente. Contudo, inerentemente somos todos saudáveis. Existe uma razão para essa doença, mas ela pode ser superada – existe uma cura. E aqui está o tratamento.”

Esses são os primeiros ensinamentos do Buda chamados de “as quatro nobres verdades”. A verdade de que a vida como vivemos em nosso estado não iluminado é essencialmente insatisfatória; a verdade da causa das coisas serem dessa forma; a verdade de haver um estado no qual atravessamos esse nível de sofrimento, um estado de liberação, de liberdade; e a verdade do caminho que conduz à essa liberdade.

A primeira verdade diz que a vida como vivemos normalmente não é muito satisfatória. Tudo estaria bem apenas “se…”. Existe sempre um “se”, sempre um “porém”, mesmo na mais feliz das vidas. E o importante aqui é o porquê; a causa de nossa enfermidade. Por que existe esse constante estado de insatisfação, de desconforto, subjacente à nossa vida cotidiana e mesmo em nossas práticas espirituais; por que é tudo permeado por esse incômodo?

O Buda disse que o problema, basicamente, é nossa falta de compreensão de como as coisas realmente são. Sendo essa uma fala de introdução ao budismo, isso tudo é muito básico. Isso é base de todas as escolas budistas. Nossa existência comum e “não iluminada” tem três grandes características. Primeiro, ela é inerentemente insatisfatória. Por que? Porque nós nos agarramos as coisas na expectativa de que elas permaneçam aqui e se conservem e, especialmente a respeito das coisas prazerosas, esperamos que elas permaneçam aqui para sempre. Mas o fato é que tudo é intrinsicamente impermanente; tudo está se movendo, tudo está mudando, de momento a momento a momento. Isso significa que nós solidificamos tudo: nós mesmos, pessoas e coisas, como se fosse tudo permanecer exatamente como nós vemos neste momento, ao invés de reconhecer que tudo está em constante movimento, como um rio.

Nós observamos um rio e dizemos: “esse é o rio tal”; no dia seguinte voltamos e dizemos: “oh, ainda é o mesmo rio”, mas na verdade toda e cada molécula daquele rio mudou, porque ele flui indefinidamente. Nunca permanece igual seja por um segundo. Isso se adequa aos fenômenos externos, mas também se adequa à nós mesmos. O que nos leva à terceira característica, que no budismo chamamos de “não-eu”.

O que o Buda quis dizer quando ele falou em anatma? Me parece que no tempo do buda, que foi há dois mil e seiscentos anos atrás, o conceito hindu de uma espécie de alma cósmica que era integrada ao divino absoluto ainda não era conhecido. Ele estava criticando mais diretamente o hinduísmo védico. E o que o buda estava realmente criticando era esse sentido de “eu” o qual todos possuímos. Quando falamos qualquer coisa, dizemos “eu gosto disso”; “quando eu era mais novo”; “na minha opinião”… existe sempre essa ideia de algo interno estático, imutável e eterno que é o eu, contraposto a todo o resto que não sou eu. E normalmente nós nunca questionamos isso. Sempre presumimos que há algo dentro de nós que é imutável e quase sólido, o eu, com todo o resto orbitando ao redor dele, feito uma aranha no centro de uma teia que ela tece infinitamente. E esse sentido de “ego” que possuímos (ego significando “eu”) foi exatamente o que o Buda, em sua iluminação, reconheceu que, desde o princípio, nunca efetivamente existiu da maneira na qual normalmente o experimentamos.

Isso não significa, é claro, que nós não existimos; obviamente nós existimos. Ele está apenas dizendo que nós não existimos da forma como pensamos que existimos. E o problema é que desde que nós postulemos essa ideia de um self no centro do nosso ser, então estaremos sempre nos estirando para agarrar e conservar as coisas que nos dão prazer. E ao mesmo tempo nós empurramos, evitamos, nos enraivecemos e nos frustramos com aquilo que causa ou ameaça nos causar dor. Portanto, somos constantemente capturados por esse jogo de atração e aversão. Tudo baseado nessa ideia, nessa ideia equivocada, de que há um eu no centro de tudo que precisa ser agradado e evitar tudo que desagrada.

Isso traz a luz esses sentimentos, emoções, que perturbam a mente constantemente: nossa ganância, apego, raiva e aversão e nossa ignorância fundamental. Ignorância no sentido de incompreensão da nossa real situação: pensamos que as coisas são muito estáticas quando elas estão, de fato, em um movimento sem fim, criando esse ciclo de tentativas de aproximar de nós o que dá prazer e afastar o que nos dá desprazer.

O problema é que esse tipo de emoções, somadas a outras como inveja e medo, perturbam a mente continuamente. E, perturbando a mente, elas se expressam na forma que falamos e, então, em nossas ações. Se olhamos para o mundo hoje, nós podemos ver de forma ampliada como nossa ganância, raiva, aversão e agressividade permeiam toda a sociedade e é a razão pela qual nosso meio ambiente está tão ameaçado; devido à nossa ganância e agressividade.

Então, a ideia básica do budadharma é, em primeiro lugar, reconhecer que esses estados mentais negativos verdadeiramente causam muitos problemas: eles causam muitos problemas para nós mesmos, causam muitos problemas para os outros e, eventualmente, causam muitos problemas para todos os seres deste planeta. Contudo, a boa notícia é que, não obstante todos estados negativos, nenhum deles é inerente. Em outras palavras, eles não são um reflexo de nossa verdadeira natureza. O Buda, como um médico, está dizendo “olha, estamos doentes; aqui estão os sintomas da nossa enfermidade, mas nós somos naturalmente muito saudáveis, então só precisamos tomar o medicamento e assim podemos recuperar o nosso estado natural de boa saúde”.

Nossa verdadeira natureza é sabedoria. É um genuíno olhar para as coisas como realmente são. É uma clareza da mente em conjunto com uma grande abertura do coração, com amor e compaixão. Essa é a nossa verdadeira natureza. Nós possuímos uma inteligência natural. Não tem nada a ver com educação: é uma inteligência inerente, uma bondade de coração inerente. Essa é a nossa verdadeira natureza. A questão, então, é como nós retornamos à nossa verdadeira natureza.

O caminho budista, basicamente, é dividido em três partes: ética, meditação e sabedoria. A parte ética do budismo é, na verdade, baseada em como viver uma vida que não prejudique os outros. Não se trata do que você come ou veste. São preceitos básicos que eram válidos há milhares de anos atrás e são válidos ainda hoje.

Os preceitos básicos de todas as escolas budistas, observados por todos o máximo possível, são, primeiro, não tomar a vida, não matar. Isso não significa somente seres humanos, mas também animais, insetos, peixes, pássaros… o que quer que tenha consciência. Por que? Porque para cada ser o que há de mais precioso é a sua vida. Assim como nós não gostaríamos que ninguém tomasse as nossas vidas, todos os seres têm as suas vidas como o que há de mais valioso. Se houvesse uma formiguinha aqui na mesa e eu me aproximasse com os dedos ela então se afastaria pensando “há perigo”; ela quer proteger a si mesma. Assim como não queremos que outros nos prejudiquem, não deveríamos prejudicar os outros.

O segundo preceito é não tomar o que não lhe foi dado, que significa basicamente não roubar. Novamente com a mesma ideia de que se não gostaríamos que outros tomassem nossas posses, da mesma forma, nós deveríamos respeitar as posses dos outros. Também diria que isso inclui quando pegamos algo emprestado de alguém sermos bastante escrupulosos quanto a devolver. Especialmente livros e DVDs… E nas boas condições que recebemos; deveríamos ter mais cuidado com a propriedade de outras pessoas do que com a nossa própria.

O terceiro preceito é acerca de má conduta sexual. E isso significa, mais uma vez, não usar a nossa sexualidade de forma a prejudicar os outros ou a nós mesmos. Significa tomar essa energia poderosa e usa-la de maneira responsável; não a usar de maneira a criar qualquer problema para qualquer pessoa, por exemplo, enganando, abusando ou apenas usando o corpo do outro para sua própria satisfação. Tornar-se responsável e verdadeiro frente às relações sexuais.

O quarto preceito relaciona-se com a nossa fala, porque como seres humanos dotados de linguagem com a qual nós nos inter-relacionamos devemos ser muito cuidadosos com nossa fala. Ela deve, em primeiro lugar, ser honesta e verdadeira. Ao mesmo tempo, porém, deve ser generosa e não-abusiva. Deve aproximar as pessoas e não afastá-las umas das outras. E também deve possuir um propósito e significado genuíno, não se alinhando á fofocas e conversas frívolas.

O quinto preceito é o que se opõe ao uso de intoxicantes, como álcool ou drogas, que pervertem e perturbam a mente. O budismo trata muito de como nos tornamos os mestres de nossas mentes ao invés de escravos dela. E, é claro, se intoxicar é contraproducente a esse propósito. Frequentemente, quando as pessoas estão sob a influência de álcool ou drogas isso não traz o que há de melhor nelas; é normal que isso traga à tona comportamentos negativos profundamente enraizados. Muitos crimes são cometidos sob a influência de drogas e álcool. Trata-se, então, de estar no controle da sua mente; de possuir uma clareza mental. Isso é muito importante no caminho.

Tudo isso é como se estivéssemos tentando montar um jardim. Imaginem que nosso coração é como um jardim que estamos tentando cultivar; os preceitos, então, são como a cerca que colocamos ao redor, para que animais e pessoas não venham de fora e pisoteiem o jardim.

Esses preceitos estão lidando com nossa conduta física e com nossa fala; não são preceitos que lidam com a mente. A mente é bem mais difícil de lidar! A mente corresponde ao segundo treinamento. Esse foi o primeiro, ética, que trata do nosso corpo e da nossa fala e está basicamente expresso nos cinco preceitos. Em um segundo nível, tratamos de como cultivar a mente. No decorrer do fim de semana, lidaremos mais com esse nível, mas o que eu direi aqui e agora é que, em geral, a meditação vem em dois níveis: o primeiro é a shamata ou meditação tranquilizadora.

É como se a mente fosse um cavalo selvagem; você olha para esse cavalo e pensa “Wow, esse é mesmo um ótimo animal! Tem grande potencial! Infelizmente, porém, ele é selvagem!”. Então, se queremos treinar esse cavalo selvagem nós precisamos primeiro doma-lo. E para doma-lo nós podemos ou bater nele até a submissão, no que ele se torna um cavalinho triste e apequenado, mas que faz o que você manda, ou nós podemos persuadi-lo a tornar-se amigável e desejoso de ser treinado. Em outras palavras, podemos dizer a nossa mente “OK, você vai se conduzir em uma única direção!” e força-la a se concentrar; é possível faze-lo mas termina-se com uma mente muito tensionada que eventualmente vai, é bem provável, acabar estourando. É muito mais habilidoso entregar um pouco de açúcar para a mente e acaricia-la com gentileza.

A meditação shamata é um método para tornar a mente calma, unidirecionada, mas ao mesmo tempo muito descontraída e espaçosa; uma mente muito feliz. Uma mente imersa em shamata também é uma mente muito equilibrada, psicologicamente estável. É muito pacífica, espaçosa, concentrada, mas também muito prazerosa. A mente pode alcançar níveis muito profundos de concentração até que, finalmente, até mesmo a mente conceitual, pensante, se dissolve. Essa é, então, uma ótima fundação. Com esse tipo de mente, que é quieta e tem uma direção, nós invertemos o foco, voltando-a para si própria para examinar o que é a mente.

Os neurocientistas têm todas essas máquinas para rastrear o cérebro e os pensamentos, mas isso não é nada comparado a nossa própria mente olhando para a mente. Esse nível de questionamento da mente é chamado de vipassana, que significa “visão clara”; olhar para as coisas com discernimento, com entendimento do que está acontecendo dentro de nós.

Então, o que estamos procurando? O que estamos procurando é o ego. Esse “eu” que aparenta estar sentado lá, no centro da nosso ser. Onde ele está? Qual a sua aparência? É como descascar as camadas de uma cebola. Sempre que pensamos ter conseguido, ela se desmonta. E, gradualmente, conforme vamos mais e mais e mais fundo, todas as camadas começam a se dissolver até que nós obtemos a realização da verdadeira natureza da mente que é comumente chamada de vacuidade. O problema com as palavras é que elas são palavras e não são a coisa em si.

Agora, o terceiro nível do caminho, após a ética e a meditação é a sabedoria. E sabedoria significa ver as coisas como realmente são e não da forma que normalmente vemos através da nossa perspectiva egocêntrica. É claro que existem várias abordagens de entendimento da sabedoria; pode-se estudar os textos, que, intelectualmente, delineiam o caminho e o entendimento do que significa a sabedoria. E isso é importante: obter uma compreensão teórica é muito importante. Mas a teoria é só um projeto mental; não é a coisa em si. Por exemplo, pode-se estudar como o chocolate é feito, todos os ingredientes químicos, como o cacau é cultivado, como é processado e assim por diante; pode-se passar um longo tempo acumulando essa teoria; descrições de sabor, do como é delicioso, suave e cremoso, mas isso não tem nada a ver com efetivamente provar um chocolate. Não é mesmo? Contudo, ás vezes, se soubermos tudo sobre como um chocolate é produzido acreditamos saber o que um chocolate é, mas isso é apenas uma ideia, não é a experiência do chocolate.

No budismo zen se diz que é como o apontar do dedo à lua. Todos ficam muito fascinados com o dedo e esquecem que ele está apontado para algum lugar. Então, da mesma forma, quando falamos da natureza da mente como sendo de uma clareza luminosa e vazia, isso são só palavras. As palavras são úteis: a natureza da mente é clara e luminosa, não escura e turva; algo bom de se saber. Isso nos dá uma ideia da coisa. Mas caso nós agarremos a ideia de clareza luminosa, vemos que também é vazia.

Vazio não significa “nada”, mas dá uma ideia de espaço; o espaço é vazio, mas não é “nada”. Porque o espaço inclui tudo e, ao mesmo tempo, conforme a física quântica, tudo é espaço. Nós falaremos mais sobre a natureza da mente no decorrer do fim semana. O importante é entender que a sabedoria no budismo é relacionada a ver as coisas não como sólidas e estáticas, tal qual nossa mente ordinária projeta, mas de forma extraordinariamente semelhante à visão da física quântica, na qual tudo está, de fato, vibrando, se movendo, em fluidez, ao contrário da solidez que a nossa mente ordinária, conceitual, projeta nas coisas.

Pois então, voltando ao começo, a razão pela qual sofremos é porque nós solidificamos tudo: solidificamos nossa percepção de “self”, nossa percepção dos “outros” e, então, nós nos apegamos, nos agarramos a essas projeções, e, não reconhecendo a sua natureza inerentemente impermanente, tentamos as segurar para nós. Visto que isso é impossível, nós sofremos. Por esse motivo, a sabedoria liberta. Porque, conforme passamos a reconhecer nosso profundo apego ao nosso “eu”, nós nos soltamos, nos abrimos. Ao mesmo tempo, esse apego profundo à outras pessoas, outras coisas, também começa a se abrir e tornar-se mais amplo e espaçoso. Então, ao invés de fechar todas as coisas em compartimentos apertados, tudo começa a fluir, a se mover, e nós dançamos nesse movimento ao invés de se segurar, defender e se apegar. Assim, com essa abertura, nós vamos além da esperança e do medo. Sempre esperamos que as coisas vão mudar ou então se manter da forma que queremos, da forma que eu quero; tememos que as coisas vão dar errado. Quando estamos abertos e espaçosos, não há esperança ou medo. E o coração experimenta uma grande liberdade, uma grande abertura e espaço que permite o amor genuíno; amor que não é apego, que não é agarrado, que é um desejo sincero de felicidade para os outros.

Quando o coração está liberado, então nós experimentamos alegria genuína, paz genuína, que não depende de nada fora de nós mesmos, mas que emerge de dentro de nós continuamente. Portanto, quando praticamos, nós não praticamos apenas para beneficiar a nós mesmos, para que nós nos aliviemos da pressão da mente ordinária e neurótica, mas, também, para que isso transborde e traga benefícios para muitos e muitos seres. Pois nós sabemos: todos queremos em nossos corações ser felizes, então como é possível que mesmo com todo esse esforço nós não alcancemos nossos objetivos e criemos tantos problemas para aqueles que estão ao nosso redor? Não é intencional, mas isso vem de uma mente que não vê as coisas claramente, que ainda está capturada por todas essas emoções negativas; por isso a prática é tão importante.

A boa notícia é que, já que nós somos inerentemente Budas, só precisamos retornar ao nosso estado de ser natural. Não é como se estivéssemos tentando criar algo estranho à nós mesmos; só tentamos voltar para casa que é como realmente somos. E, não importa o quanto estejamos capturados em nossas neuroses atuais, não passa de uma manifestação temporária: se fizermos os esforços, retornamos a nossa verdadeira sanidade elementar.

Eu gostaria de finalizar dizendo que, no fim, ninguém pode fazer por nós: temos que agir por nossa própria conta. Mesmo que o próprio Buda estivesse sentado aqui, tudo o que ele poderia dizer é: pratiquem. Não é mesmo?

 

 

PERGUNTAS & RESPOSTAS

P: Você disse que não devemos matar, é claro. Porém, só pelo ato de respirar nós matamos milhares de seres. Como isso se encaixa no preceito que diz que não devemos matar?

JTP: Se levarmos isso ao extremo, chegamos em uma religião que se chama Jainismo, cuja origem é contemporânea ao tempo do Buda e ainda existe na Índia hoje. E, porque seu principal ensinamento é a não violência, alguns adeptos levam isso muito ao extremo, sendo a sua ideia de liberação última simplesmente sentar e morrer de inanição. Pois sempre que você se mover vai prejudicar algo ou alguém. E o que o Buda disse foi “Bom, isso é um pouco extremo”.

Porque o ponto é liberar a mente. Nós evitamos prejudicar os seres tanto quanto possível, mas toda vez que você se banha mata milhões de bactérias. O que fazer? Isso é diferente de ver uma formiga e, deliberadamente, esmaga-la.

 

P: Como compatibilizar a visão da vacuidade e a lei de causa e efeito?

JTP: No budismo existem duas verdades: a verdade relativa e a verdade absoluta. No nível relativo, há causa e efeito. Se alguém faz alguma coisa, haverá um resultado correspondente. Porém, no nível absoluto, não há vir ou não-vir. Então, depende de que nível você está tratando. Por exemplo, a causa e efeito no âmbito do carma, onde as ações que realizamos com intenção irão, com o tempo, criar um resultado, um efeito. Se agimos com uma mente agressiva, nós percebemos os resultados disso. Se agimos com uma mente generosa, nós percebemos, com o tempo, os resultados disso. Isso é verdadeiro em um nível relativo.

Se consideramos as nossas ações como as contas em um japamala, se eu puxo uma conta, todas as outras a seguem. Elas estão capturadas nesse ciclo de ação e reação. Mas o que segura todas essas contas juntas é a linha, e a linha é o pensamento, a crença de que alguém está fazendo essa ação. Eu estou fazendo essa ação. Então, desde que nós acreditemos que existe um agente fazendo algo, então isso age como a linha que puxa todas as nossas ações de corpo, fala e mente. Porém, se cortarmos a linha, em outras palavras realizamos a vacuidade, então, se nós puxamos uma conta, as outras não a acompanham. Se não fosse assim não haveria liberação.

 

P: Gostaria de ouvir um pouco sobre o seu trabalho com as monjas.

JTP: Eu vivo no norte da Índia, em torno de uma hora e meia de Dharamsala, onde sua santidade Dalai Lama vive e em torno de uma hora de onde sua santidade Karmapa vive. Nós temos um pequeno convento que se chama Dongyu Gatsal Ling e temos em torno de setenta monjas, em geral jovens provenientes do Tibete e outras regiões himalaias como Ladakh, Nepal, Butão e assim por diante. Nós pertencemos a tradição Drukpa Kagyu e nosso monastério afiliado é há mais ou menos dez minutos de distância em um vilarejo tibetano.

Até uns vinte anos atrás as monjas não eram educadas no sentido filosófico, com debates e outras técnicas; esse era um privilégio dos monges apenas e às monjas eram ensinados somente alguns rituais simples e frequentemente acabavam como servas de suas próprias famílias ou no monastério. Claro que isso não é exclusivo ao budismo; é um fenômeno global até muito recentemente as mulheres não tinham acesso à educação. De qualquer forma, nos últimos vinte anos as mulheres do mundo secular vêm frequentando a escola e se educando, daí se tornou óbvio que as monjas, igualmente, deveriam ser educadas. Por que elas seriam privadas da oportunidade de estudar?

No nosso convento, as monjas têm professoras monjas sênior de outros conventos mais bem estabelecidos que lecionam, assim como professores homens. A maioria das moças não chegam sabendo tibetano; elas vêm de regiões himalaias que são conectadas ao budismo tibetano, mas que não falam o idioma, então nos primeiros dois anos elas tem que aprender a ler e escrever e entender o tibetano.

Então, as moças estudam filosofia budista, estudam os debates; alguns de vocês devem ter visto monges debatendo ou, ainda, monjas, nos dias de hoje… bem selvagem! Elas também realizam rituais de Puja, preces na parte da manhã e ao entardecer e uma vez a cada ano na estação chuvosa elas fazem um retiro em silêncio de dois meses. Também temos um centro de retiro com cinco monjas; elas estão em um retiro de longa duração, a maioria delas finalizando cinco anos. Elas planejam um retiro de doze anos; uma delas planeja um retiro de vida inteira. Em nosso monastério afiliado em Tashi Jong, existe ainda um grupo de monges que também são yogis chamados Togden. Eles passam a vida toda em retiro; tem dreadlocks e usam saias brancas. São yogis, mas também são monges. O mais antigo desses yogis é o professor para nossas monjas em retiro.

Nossas monjas esperam que no futuro elas possam tornar-se yoginis, possam tornar-se togdenma. Esse é um treino muito longo; muitos monges que eu conheci antes, quando eram monges comuns, eu não vejo faz quinze, dezesseis anos. É como se você tivesse uma porção de massa que você quer transformar em pão. Você coloca no forno e aumenta a temperatura e assim o pão surge, mas você não tira do forno cedo demais, porque se o fizer o pão se desmantela e fica totalmente nojento. Você precisa esperar, mantê-lo no forno na temperatura máxima; até que ele esteja assado em toda sua extensão. Aí você pode retira-lo e come-lo; ele está delicioso e nutritivo, não vai desabar.

Basicamente, temos a esperança de que no futuro algumas de nossas monjas vão se tornar eruditas e professoras de filosofia e que outras se tornarão, definitivamente, através de seus retiros e práticas, mestras em meditação, e dessa forma, também, capazes de beneficiar os outros, já que há realmente muito poucos exemplos femininos para essas moças. Os mestres que elas veem são homens e isso traz uma mensagem um pouco deprimente.

 

P: Você disse que algumas monjas estão treinando para tornarem-se togdenma. No que consiste isso?

JTP: Togpa significa realização, especialmente realização da natureza da mente. Den significa a posse dessa realização. Então, togdenma¸ quer dizer aquele que é realizado. Significa, então, que o que elas precisam fazer é tornar-se realizadas e estabilizar essa realização. Por isso eu fiz uso da analogia de assar pão: não é difícil ter a realização da natureza da mente, isso é razoavelmente fácil, mas estabilizá-la? Ah!

Até que essa realização esteja verdadeiramente estável, então elas não são chamadas de Togden. Por isso essas monjas são dedicadas à prática; não pensam no sentido de “bom, depois de três anos eu viro alguém”. Três anos não são nada. Quando eu ia fazer o retiro de três anos em Lahaul e disse isso a um dos Togdens sua reação imediata foi: “três anos?! Pelos menos sete, dez, doze anos, mas três?”. Nossas monjas fizerem seu primeiro retiro de três anos, depois saíram por um mês para visitar dentistas e médicos, fizeram um checkup, e aí retornaram.

 

P: Como nós podemos na nossa vida comum planejar nossas ações, tomar decisões no trabalho, sem essa noção de um eu?

JTP: É preciso lembrar, por exemplo, que o próprio Buda, após a iluminação, passou os próximos quarenta e cinco anos vagando o norte da Índia espalhando o Dharma, ensinando aquilo que ele realizou e organizando uma comunidade monástica altamente eficiente. Ele não ficou sentado passivamente destituído de um self; ele era consideravelmente eficiente. Eu acredito que quando se está em um estado de grande clareza e lucidez, suas ações se tornam espontâneas e para os outros elas aparentam precisamente corretas. Reconhece-se espontaneamente o que deve ser feito em dado momento, se tornando muito mais eficiente do que quando o ego está no assento do motorista.

Devemos nos lembrar que a palavra que geralmente usada no inglês, “enlightenment” (iluminação), na verdade significa acordar, tornar-se desperto. Existe uma diferença entre a consciência desperta e essa consciência comum, sonâmbula, que acreditamos estar desperta. Porque, se estamos realmente acordados, estamos em um nível totalmente diferente de clareza se comparada ao nosso estado normal-zumbi.

Quando pensamos nos grandes mestres de prática, eles são muito mais despertos, muito mais vivos, muito mais capazes de ações benéficas que as pessoas comuns, cujas mentes estão tão distraídas e capturadas em preocupações egoístas. Então, não se preocupe.

 

P: Eu gostaria de saber por que os grandes mestres eram praticamente cegos quanto ao potencial de basicamente metade da humanidade.

JTP: Eu não sei. É um mistério. Quem sabe? De qualquer forma, não se preocupe; as coisas estão mudando. Levou algumas centenas de anos… milhares de anos! Mas, lentamente, as pessoas vêm reconhecendo que havia, que um problema. A mudança importante é que agora as pessoas veem que há um problema. Uma vez que se reconhece o problema, então passa-se a buscar a solução; se ele não é reconhecido, a vida continua.

 

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