Ensinamento de Jetsunma Tenzin Palmo em Recife, 2014 – parte 2

Ensinamento de Jetsunma Tenzin Palmo em Recife, 2014 – parte 2


JETSUNMA TENZIN PALMO NO BRASIL – ENSINAMENTO #2: MEDITAÇÃO SHAMATA (retiro “Aprofundamento na Meditação e Sabedoria do Budismo”, em Recife (PE), de 9 a 11 de maio de 2014). Link: https://www.youtube.com/watch?v=4a1uokDmeH8

            Bom dia. No decorrer desse fim de semana nós vamos falar um pouquinho sobre meditação básica na tradição budista. Conforme mencionamos ontem, a meditação budista é, basicamente, dividida em dois níveis. O primeiro nível é o de shamata, ou do calmo permanecer ou, ainda, atenção plena, na qual nos focamos em fazer da mente mais calma e, ao mesmo tempo, mais concentrada, mais focada em uma única direção. Então, basicamente, o objetivo da meditação na tradição budista é realizar ou perceber a natureza da mente e a natureza do nosso ego. Porque é reconhecido que nosso verdadeiro problema não está fora de nós mesmos. Quero dizer, quando nos sentimos frustrados ou deprimidos ou estressados nós culpamos outras pessoas, culpamos o clima, culpamos o governo; culpamos tudo, mas o verdadeiro problema é a nossa mente. O que, obviamente, é uma ótima notícia, então não precisam ficar tão sisudos. Isso é uma boa notícia! O problema somos nós; não precisamos transformar os outros.

A outra parte da boa notícia é que, fundamentalmente, nossas mentes são absolutamente saudáveis; apenas acontece que, em algum momento do caminho, elas bagunçaram um pouquinho, mas isso pode ser remediado. Eventualmente nós devemos verdadeiramente olhar para nossa mente e, de fato, procurar por esse “eu” que aparenta dominar toda nossa vida, toda nossa psique. Entretanto, para conseguirmos fazer isso, precisamos ter um instrumento muito bom para dissecar a mente, tal qual um cirurgião com um bisturi. Nenhum cirurgião faria uma cirurgia com um bisturi cego, enferrujado e torto. Ele precisa portar um instrumento limpo e afiado. Portanto, a prática de shamata, de tornar nossa mente mais calma, tranquila, concentrada e limpa, é uma forma de tornar a mente mais trabalhável, mais aproveitável; em tibetano se diz lesunrunwa e a palavra significa exatamente isso, de tornar mais trabalhável, para que, quando quisermos usa-la, ela seja um instrumento apropriado e funcional. Assim, possuir uma mente limpa, calma, focada e atenta é o primeiro passo. Não é o objetivo final, é a preparação para executarmos o verdadeiro trabalho de encontrar a sabedoria inerente a todos nós.

Quando o Buda veio a abandonar seu lar ele estudou sob a orientação de dois professores principais e, conforme a tradição, o primeiro professor lhe ensinou os dhyanas. Os dhyanas são níveis de concentração muito profundos, nas quais o sujeito tem cada vez menos formas de pensamento e a mente se concentra cada vez mais profundamente. Existem oito dhyanas; o primeiro é o chamado “dhyana da forma” e o segundo é o chamado “dhyana da não-forma”, relativo a uma consciência infinita, um vazio infinito. O primeiro professor de Buda lhe ensinou o “dhyana da forma” e acreditava que a bem-aventurança e a clareza que advinham da entrada nesses profundos estados de concentração eram, efetivamente, a iluminação, a liberação. O segundo professor ensinou-lhe os níveis da não-forma, que eram ainda mais profundos e, por sua vez, acreditava igualmente que aquela sensação de expansão absoluta da consciência, englobando todo o universo, era a liberação; crença compartilhada até hoje por alguns. Em ambos os casos, o Buda negou que fossem a liberação, porque sentiu que era preciso ir mais além. O que eu estou tentando dizer é que essas experiências, que eventualmente são chamadas de “consciência cósmica” ou similares, são consideradas muito úteis no budismo, mas ainda são meramente a fundação a partir da qual o sujeito prossegue à verdadeira “dissecação” e reconhecimento da ausência do ego de nossa constituição psicossomática, de nosso senso de “self” e, para além disso, ao reconhecimento da verdadeira natureza da mente, que é o tema com o qual lidaremos nessa tarde. Então, nessa manhã nós lidaremos apenas com esse primeiro nível, que corresponde a tornar a mente mais calma.

Muitas pessoas acreditam que suas mentes estão, de forma geral, bem e que, quando querem pensar a respeito de algo, podem, então, facilmente se guiar a pensar nesse algo. Portanto, sobrevêm como uma espécie de choque para muitos, quando experimentam seu primeiro retiro, serem orientados a fazer algo simples como sentar, respirar e atentar-se à respiração, ignorando todo o restante. Porque, afinal de contas, isso soa como a coisa mais simples do mundo e, de fato, é a coisa mais simples do mundo; nós estamos todos respirando, então tudo que temos que fazer é sentarmo-nos e reconhecer que estamos respirando e continuar nesse reconhecimento por, bem… dois minutos? É aí que as pessoas descobrem que, na verdade, não conseguem fazê-lo. Que depois de meio minuto, mais ou menos, suas mentes já estão em outro lugar. E então elas devem relembrar: “a não! Respiração, certo? Respiração…”. Se não acreditam em mim, nós vamos fazer o teste. E traz grande humildade reconhecer, quando tentamos concentrar a mente em algo tão simples, quão pequeno é o nosso controle sobre nossas próprias mentes.

Porque nós vivemos em nossa mente. A mente é a coisa que nunca podemos abandonar, nem mesmo durante o sono, onde temos ela conosco nos nossos sonhos; para onde quer que viajemos, levamos a nossa mente junto. Não podemos deixar a mente para trás: desde que estejamos conscientes, estamos pensando. E o fato de tantas pessoas terem com elas uma mente que é totalmente fora de seu controle, e sob o controle de tantas outras forças, as quais elas prefeririam sinceramente que não as controlassem, é, de fato, muito perturbador.

Atualmente, em especial no mundo moderno onde a tecnologia continua nos dando presentes que ajudam a tornar a vida mais fácil, o que, é claro, só aumenta os nossos níveis de estresse, é extremamente importante que aprendamos a nos tornar mais centrados, e não só nos momentos em que estamos sentados em meditação formal, mas tanto quanto possível, durante toda a extensão do dia. E o fato é que a mente que é mais centrada, mais tranquila em si mesma, é também uma mente muito mais eficiente; assim, também durante nosso dia somos capazes de lidar com as coisas e funcionar em um nível muito melhor do que quando a mente está constantemente se debatendo em pensamentos, em sua maioria, irrelevantes, se debatendo em emoções irrelevantes, e nada sobra a fazer com a tarefa que temos a mão.

E, como vocês sabem, hoje em dia a meditação está na moda e, longe de nos zombarem quando contamos que vamos à um retiro de meditação, as pessoas começam a nos dizer “É mesmo? Qual deles você vai?” Porque elas sabem que a meditação abaixa sua pressão sanguínea, abaixa o colesterol, te torna mais eficiente e assim por diante; tanto é que muitas empresas têm mandado seus funcionários a cursos de meditação e atenção plena porque isso faz deles máquinas muito mais eficientes.

Isso é bom. Quero dizer, eu acho que se as pessoas começam a aprender a meditar, nem que seja para abaixar a pressão sanguínea, ao menos elas estão meditando. Então, absolutamente não se trata de algo ruim. A meditação não é mais considerada algo esquisito ou alienígena. Mas, como eu disse, no budismo essa qualidade de meditação não existe somente pelos seus benefícios físicos e mentais, mas porque é o caminho até o despertar. E a meditação budista é muito dócil e praticável em qualquer caminho espiritual. Quero dizer, eu conheço muitos monges católicos que praticam a meditação budista porque ela os faz católicos melhores; hindus que praticam a meditação budista porque ela os faz hindus melhores e eu conheço até muçulmanos que meditam, porque a meditação os faz melhores muçulmanos. Basicamente, a meditação nos torna seres humanos melhores.

Então, o importante nesse ponto, o que se busca no primeiro nível de meditação, é apenas uma tentativa de nos tornar psicologicamente equilibrados. Em si mesmo não nos libera, mas nos prepara. Não reduz o nosso sentido de ego, mas o que faz é deixar o ego saudável. No budismo o ego é um tipo de bad trip; todos agridem o ego. Porém, se olhamos para ele, se olhamos para o caminho, e isso é não-ortodoxo, nenhum Lama jamais disse isso, podemos ver que talvez noventa e oito por cento das instruções são, de fato, como fazer o ego trilhar o caminho. Porque, na verdade, de acordo com a tradição theravada, o nosso sentido de um “eu” individual, sólido e imutável no centro de todas as nossas ações não se esvai completamente até que nós atinjamos a condição de um arhat, ou seja, de um santo perfeito. E na tradição mahayana, até que atinjamos o oitavo estágio do boddhisatva, que realmente é bastante alto. Então, enquanto isso, devemos carregar nós mesmos conosco. Portanto, o que precisamos é ter um sentido de “eu” que é um aliado no caminho e não um obstáculo. Em outras palavras, precisamos de um sentido de “eu” sadio, capaz de trilhar o caminho até que, finalmente, através de um profundo discernimento, ele possa se dissolver.

Porque, por exemplo, se nós temos um braço que está ferido, com dor, então estamos sempre muito conscientes desse braço, o protegendo, e se alguém toca nele, sentimos dor; não podemos usá-lo porque está machucado, mas ele continua lá como algo que protegemos indefinidamente. Enquanto que, se nosso braço está saudável e incólume, nós não pensamos a respeito dele. Aí podemos usá-lo, ele é muito útil; uma pancada nele gera um “Ai!”, mas não nos incomoda, não pensamos nisso e, de forma geral, o braço não é uma questão em nossa vida. Assim, da mesma forma, se temos uma baixa autoestima… quero dizer, as pessoas, frequentemente, e não sei se no Brasil, mas em todos os outros lugares, têm uma concepção de “eu” muito baixa. Elas não gostam de si próprias, elas não têm confiança interna ou fé em si mesmas, sendo sempre muito cruéis consigo mesmas, dizendo coisas realmente abomináveis, se autocriticando continuamente, tagarelando em um diálogo interior muito mais áspero do que usariam com os próprios amigos. E algumas vezes as pessoas pensam que isso é ser humilde, que é ter humildade nunca reconhecer as coisas boas em si mesmas e amplificar tudo que há de errado, constantemente se criticando e se colocando para baixo; de que, de alguma forma, isso é mais espiritual. Portanto, quando elas leem no budismo algumas duras críticas ao autocentramento e, especialmente, sobre como não há nenhum “eu” sólido e imutável no centro de nossa existência, acreditam que é correto agredirem a si mesmas e esse é um grande mal-entendido a respeito do que consiste o verdadeiro caminho.

Alguém disse que humildade é a inexistência de qualquer um para se orgulhar. Não é o ego se autoflagelando; é o fato de, como no braço que é saudável, nós simplesmente não estarmos pensando sobre nós mesmos. Portanto, na prática budista também há aquilo que se chama das quatro qualidades incomensuráveis, que são a bondade amorosa; a compaixão; a alegria empática, que significa regozijar-se na bondade das coisas, em que nós não apenas pensamos nas suas falhas, nós pensamos também na sua bondade e, por fim, a equanimidade que não favorece somente aqueles que são próximos de nós e ignora aqueles que são distantes, mas reconhece que todos os seres querem ser felizes e ficar bem. E qualquer método tradicional para praticar a bondade amorosa, a compaixão e assim por diante, conforme instruiu o Buda, começa com nós mesmos. Que eu fique bem e seja feliz. Que eu fique em paz e tranquilo. Que eu me livre do sofrimento.

Precisamos desenvolver essa bondade amorosa e compaixão primeiro dentro de nós, depois nós damos aos outros: primeiro para aqueles com quem nos importamos; alguém que amamos, que ele fique bem e seja feliz. Então a alguém indiferente, neutro; que ele fique bem e seja feliz. Então a alguém com quem temos problemas, alguém que não gostamos tanto, também desejando que ele fique bem e seja feliz. Porém, o lugar para começarmos é em nós mesmos.

Porque, primeiro, nós temos de reestabelecer a saúde do nosso “eu”. Fazer do nosso “eu” algo saudável a fim de podermos trilhar o caminho por inteiro. Uma das qualidades necessárias ao caminho é a do entusiasmo alegre. E é muito difícil ser alegremente entusiasmado quando, em nosso interior, estamos sempre nos machucando. Uma das formas de auxiliar no alcance de um sentido de integridade psicológica em nosso ser é esse tipo de meditação, de tornar a mente mais calma e centrada, é muito remediadora. É também muito simples.    Existem, é claro, muitas e muitas formas de praticar meditação shamata, mas um dos métodos fundamentais, o qual mencionamos antes e o próprio Buda utilizou, é o de concentrar-se na respiração. A respiração é, verdadeiramente, um importante objeto da meditação, porque, afinal, estamos sempre respirando. A respiração, se pensarmos a respeito, é uma função automática do corpo, juntamente com os batimentos cardíacos, os rins, os intestinos; é algo que se desenvolve estejamos ou não conscientes disso, mas é a única função automática sob a qual podemos exercer controle. Felizmente, não temos controle de nossos batimentos cardíacos e assim por diante, mas a respiração, se alguém diz: “todos prendam a respiração”, todos são capazes de fazê-lo. Normalmente nós só inspiramos e expiramos, mas podemos respirar de forma rápida, lenta, profunda, superficial; podemos afetar nossa respiração só pensando sobre ela. Para além disso, nossa respiração tem um contato muito íntimo com nosso estado mental e emocional. Quando estamos com medo, agitados, serenos, raivosos, lascivos ou o que quer que seja, a condição intensa em nossa mente vai afetar a respiração. Mas, mais importante, nós não podemos respirar no passado ou no futuro; só podemos respirar agora. O que significa que, se estamos verdadeiramente conscientes da respiração, não pensando a seu respeito, mas reconhecendo-a, estamos presentes.     Podemos nos indagar qual é o grande interesse em estar presentes, mas, de fato, conforme conseguimos enxergar nossas mentes, reconhecemos que ela está, na maior parte do tempo, passeando no passado, ou no futuro, ou correndo em volta do presente; nunca está apenas repousando no aqui e agora. É, na verdade, muito difícil para nossa mente, nossa mente conceitual dominada por nosso ego, estar presente. Essa meditação na respiração é um instrumento muito hábil para nos trazer de volta ao aqui e agora, não apenas nos momentos de prática formal, mas também durante nossos dias; quando a mente se distrai ou se estressa muito, nós só precisamos respirar e traze-la para repousar na respiração. Assim, a mente, logo em seguida, já experimenta essa “mini sessão” de meditação, de tornar-se tranquila.

Quero dizer, quando alguém estiver dirigindo, por exemplo, em um sinal vermelho, ao invés de sentir-se frustrado em relação a todos esses semáforos que encontrou, pode pensar “Que ótimo! Inspirar… expirar… inspirar… expirar”. Em Déli, até recentemente, em todos os sinais vermelhos, haviam letras garrafais em branco dizendo “RELAX!” (eram em inglês, não sei porque não em hindi). Mas o ponto é esse; quando aguardamos o computador mudar de programa… qualquer um desses numerosos episódios durante o dia, quando há momentos em que temos que parar, então, ao invés de ficarmos frustrados e estressados com a demora, podemos assumi-los como maravilhosas oportunidades de retornar ao nosso centro. Pois então, formalmente, como fazemos isso?

Existe um método formal de se sentar, o qual discutiremos agora. Na verdade, esse método tão formal de sentar-se foi concebido na Índia (e depois se espalhou em outros países asiáticos), mas, fundamentalmente, foi criado para pessoas acostumadas a sentarem no chão de pernas cruzadas. Portanto, essa maneira formalíssima de sentar foi introduzida em todos os diversos países asiáticos budistas e tornou-se um aspecto muito importante no aprendizado da meditação. Mundialmente, a imagem do monge budista é do tipo sentado em lótus completa; “quando meditando, devemos nos sentar bastante formalmente”. Então, conforme essas tradições asiáticas embarcaram no mundo ocidental, também sobreveio a ênfase no sentar de forma tão formal.

Contudo, há um tempo atrás eu estava na América e me encontrei com essa mestra Zen Roshi, e ela me contou que havia escorregado no banheiro e fraturado o quadril, de forma que tinha de sentar em uma cadeira para meditar. Que horror! Quero dizer, o Zen se orgulha especialmente de sua postura formal perfeita e do quão importante é isso na meditação. E ela contou que o que a surpreendeu, enquanto sentada em uma cadeira, foi a descoberta de que isso não fazia diferença alguma. Coincidentemente, conheci um mestre Zen chinês que havia deslocado o disco, com o qual aconteceu a mesma coisa: ele tinha de sentar em uma cadeira e ele disse exatamente a mesma coisa. Surpreendeu-se com a descoberta de que isso não fazia nenhuma diferença.

Existe ainda um conhecido professor de meditação chamado Alan Wallace, que enfatiza especialmente a shamata e faz com que seus estudantes se deitem na postura do cadáver, porque ele disse que, na shamata, nós estamos tentando relaxar a mente e é muito difícil relaxar a mente quando o corpo está em uma posição não natural para si mesmo; quando está sentindo-se extraordinariamente tenso. Sabem como é? Joelhos doídos, costas doloridas, quadris doloridos e você supostamente devendo relaxar. E muitas pessoas com quem eu conversei que testaram esse método, depois de superarem os cochilos eventuais, disseram que foi, de fato, muito útil; porque você se esquece do corpo completamente, o corpo fica completamente relaxado, e isso permite a mente se acalmar. E uma vez que a mente se habitua a ideia de acalmar a si própria, então é possível, também, a pratica sentada.

Eu posso mencionar aqui que, na tradição tibetana, o Buda vindouro, o próximo Buda a existir, que é chamado de Maitreya, é representado sentado em uma cadeira, com suas pernas para baixo. É o único representado dessa forma; normalmente os outros budas são ilustrados de pernas cruzadas. Este, o Buda do futuro, está sentado em uma cadeira!

Mencionei isso, porque quando nós passarmos pelos sete pontos da postura sentada eu não quero que vocês se sintam intimidados; que pensem que se não conseguirem sentar nessa postura perfeitamente, portanto vocês não serão capazes de meditar. Não tem desculpa.

É claro que a explicação tradicional para a importância dessas posturas é que cada uma governa canais de energia particulares, os qis ou pranas, e que, se alguém senta em postura perfeita, então o qi vai se equilibrar e quando o qi está em equilíbrio, então a mente naturalmente torna-se equilibrada. E, convenhamos, isso é absolutamente verdade. Quando alguém se senta em uma postura estritamente perfeita e o corpo está relaxado nessa posição, então o corpo se sente muito leve, sem peso, e extremamente equilibrado e a mente também se sente muito focada e equilibrada. Os dois caminham juntos.

Essa também é a razão pela qual, na Índia, o Hatha Yoga era preliminar à meditação, porque o corpo ficava muito flexível, podia sentar-se muito perfeitamente, e todo o prana ficava bem equilibrado, de forma que era fácil para a mente, então, ficar bem equilibrada. E, da mesma forma, na China, o Tai Chi, Chi Kung, Kung Fu etc., são igualmente destinados a fazer com que as energias do corpo se equilibrem e a tornar o corpo flexível, para que, quando alguém venha a praticar, o corpo seja um aliado, não um obstáculo. Porque, como dissemos, a respiração e o qi estão muito intimamente ligados à mente. Então, quando se está bem equilibrado, a mente naturalmente torna-se bem equilibrada.

Pois então, nestes sete pontos, chamados dos sete pontos de Vairocana, o primeiro, que é um tanto óbvio, é sentar-se em posição de lótus, ou padmassana, com os tornozelos apoiados nas coxas. Aqueles que sentam-se de pernas cruzadas no chão desde a infância acham muito fácil sentar-se nessa postura. Para todos os outros, fazem-se ajustes como por exemplo sentar-se em meia lótus ou somente de pernas cruzadas. E, é claro, usa-se o zafu (e é notável que na Índia e no Tibete, por exemplo, eles não precisam de zafu, porque eles estão acostumados a sentarem-se no chão; seus quadris são muito flexíveis. Por isso acham o zafu uma coisa muito curiosa!). E nas culturas da China e do Japão, onde o costume é sentar-se ajoelhado eles não sentam de pernas cruzadas, mas querem sentar-se de forma muito perfeita; daí que a ideia de um suporte para as costas tornou-se prevalecente.

O mais importante é manter a coluna ereta, seja sentado no chão, na cadeira ou deitado, a coluna deve manter-se ereta, todavia não retesada, mas relaxada. Porque, se nos afrouxamos, a energia fica travada. Então, sentamo-nos eretos e os ombros devem se alocar acima, para trás e abaixo; diz-se tal qual uma águia, de peito estufado para que as omoplatas se aproximem, de forma que o corpo sinta-se bastante composto. Ao mesmo tempo, o queixo deve inclinar-se pra dentro um pouco; se olharmos para a estátua do Buda, ele está sentado corretamente, nem com o pescoço para cima nem para baixo, com o queixo levemente recolhido. Os olhos devem manter-se entreabertos. Em algumas tradições, os olhos ficam fechados; em outras, ficam escancarados. Aqui, contudo, os olhos devem ficar semicerrados, com o olhar há mais ou menos um palmo da linha formada pelos joelhos, onde eles naturalmente repousam se sentamos nessa posição.

Quando eu estava aprendendo shamata pela primeira vez com um velho Yogi, ele me deu um pequeno seixo para que eu colocasse nesse ponto do olhar e focar-me naquilo como meu objeto de meditação. Isso aconteceu, em primeiro lugar, para tornar a mente unifocal, porque um seixo é só um seixo; não há muito o que pensar a respeito dele. Então, servia para manter a concentração, mas também para treinar os olhos a não tremularem ou piscarem demais; somente repousarem entreabertos em uma única direção.

A língua deve manter-se ou recolhida no céu da boca ou atrás dos dentes dianteiros. E as mãos devem ou manter-se sobre o colo, com os polegares tocando-se suavemente, ou repousando sobre os joelhos. Então, quando nessa posição, você relaxa. Sinta o peso na sua barriga: o seu centro de gravidade não deve ser nos ombros, mas mais embaixo, no abdômen. É como um triângulo, e um triângulo é muito equilibrado; triângulos não titubeiam para os cantos, mas são muito estáveis. Então, da mesma forma, quando sentamos nessa posição, se sentados bem satisfatoriamente, todas as energias ficam balanceadas, o corpo torna-se equilibrado, e, portanto, sente-se uma grande estabilidade.

O que se faz é assumir essa postura e trazer a mente, em primeiro lugar, ao espaço no qual estamos; adquirir esse sentido de presença, de estar aqui, sentado. Então trazer a atenção ao corpo; a sensação de sentar-se na almofada, das mãos tocarem-se suavemente, e a sensação da respiração, inspirando e expirando. Traga, então, lentamente, a atenção à respiração, especialmente às narinas, conforme o ar entra e sai. O objetivo, portanto, é estarmos respirando e reconhecer que estamos respirando; é só o que temos que fazer. Respirar e conscientizar-se disso. Enquanto isso, a mente pensante ressoa barulhenta no segundo plano. Não tem problema. É como se estivéssemos em um cômodo com a televisão ligada, mas mais interessados em um livro que estamos lendo, ou em um programa de computador que estamos usando, ou o que seja. Não estamos interessados na televisão, então não a desligamos, somente a ignoramos. Assim, é muito importante reconhecer que a mente pensante comum não é um inimigo, certo? É só nossa mente conceitual; nós podemos ignorá-la. A mente pensante, nossa mente ordinária e conceitual, não é o problema; é a nossa identificação com a mente conceitual que é o problema.

Nesse caso, o problema não é a mente pensante acontecendo no plano de fundo; o problema é sermos carregados por ela. Então, toda vez que somos carregados e reconhecemos que fomos agarrados em nossos pensamentos novamente, esquecendo a respiração, não há problema: apenas volta-se à respiração. E, conforme se diz, mesmo se tivemos de voltar a respiração cem vezes durante nossa sessão, contanto que a gente volte de fato, então foi uma boa sessão. É quando desistimos, deixamos de ligar, “ah, esquece isso!” … então trata-se de uma derrota. Mas, desde que nós nos flagremos no ato, basta, sem culpa, retornar à respiração. Igualmente, com quaisquer sons que sobrevenham, tanto quanto possível, devemos apenas nos aperceber desses sons e, então, retornar à respiração.

Pois então, é bastante simples: o importante é realmente manter a mente bem tranquila e espaçosa, sem tensão; tranquila e espaçosa, porém presente, apenas concentrada na respiração. Quando nos esquecemos de nos concentrar, nós relembramos de novo e retornamos. Mais uma coisa que pode ajudar se as vezes focar-se na respiração for um pouco sútil demais é “contar” a respiração. Então, quando expira-se, pensa-se “um”, depois inspira-se e aí expira-se novamente, “dois”, até, digamos, “dez”, e aí volta-se ao “um” mais uma vez. Esse é um auxílio na concentração porque, se descobrimos que chegamos até o cinco ou seis com a mente desligada, automaticamente recitando números, mas distraída da respiração, então volta-se ao “um” de novo. Portanto, isso é apenas um auxílio para nos ajudar a tornar-nos conscientes de como estamos indo. Se chegamos ao três e nos perdemos, então permanecemos voltando ao “um”, até que consigamos chegar sem problemas ao “dez” e, daí, podemos largar a contagem.

Enfim, a ideia dessa meditação do calmo permanecer é tornar a mente mais flexível, do mesmo jeito que fazer exercícios; os músculos ficam tonificados, assim, da mesma forma, os músculos da mente tornam-se mais flexíveis, mais funcionais, e, ao mesmo tempo, a atenção torna-se focada. Quero dizer, dizem que a duração da atenção de uma criança hoje em dia, em média, nos Estados Unidos é, eu acho, de dois segundos. Se muito boa, de quatro segundos. O que é bastante assustador, porque possuir o que se considera como uma concentração bastante boa, sedimentada, seria concentrar-se por umas quatro horas. Então, todos temos alguma prática a fazer.

 

PERGUNTAS & RESPOSTAS

 

P: Comecei a me sentir um pouco sonolento durante a prática, talvez porque eu esteja sempre ativo e só paro na hora de dormir. Como melhorar isso?

JTP: Consideram-se dois obstáculos principais no atingir do calmo permanecer. O primeiro é o que você mencionou, que é quando a mente “afunda”, em outras palavras, torna-se sonolenta. O outro problema é que a mente fica muito agitada e distraída. Portanto, quanto à esta mente “submersa”, em primeiro lugar, quando começamos, é só sentar-se e ficar quieto, então a sonolência pode ser o sinal que precisamos dormir mais. Pode ser simples assim. Em todo caso, deve-se descansar. Porém, muito mais traiçoeiro que o problema da mente submersa é que, quando sentamos, nós podemos chegar a um estado de muita calma e paz e você sente que nunca mais quer se mover, chegando a sentir que esta meditando profundamente, quando, na verdade, a mente apenas afundou. Esse é um verdadeiro erro. Diz-se que, se a pessoa fica viciada nesse estado mental, de grande paz, mas insosso, ela provavelmente renascerá como uma vaca! A razão de ser traiçoeiro é que isso se disfarça de meditação: na meditação genuína a mente torna-se mais desperta, muito afiada, muito clara, espaçosa e aberta, mas absoluta e luminosamente vívida. Neste caso é meditação. Se a mente só se afunda em uma sonolência plácida, então isso é um obstáculo. Afinal, a meditação é sobre nos despertar e não nos colocar para dormir. Se você fica sonolento, sente-se ereto. Se em seu espaço pessoal de prática você continua a se sentir embotado, levante-se, faça, quem sabe, um exercício bem ativo, vá até lá fora, observe a vista ampla, escancare os olhos, e assim por diante. Acorde sua mente. Milarepa, o grande santo tibetano, quando começou a meditar, costumava usar uma lamparina de manteiga no topo de sua cabeça. Porque você não deixa o corpo cair no sono com uma lamparina na cabeça! Jack Kornfield, um famoso professor de vipassana, meditava na beira de um poço profundo. Te mantém acordado!

 

P: Tenho um problema muito sério de coluna e vivo com dor. A minha pergunta seria se devo tomar um analgésico antes da meditação ou me acostumar a praticar mesmo com a dor?

JTP: Se a dor é decorrente de um ferimento ou lesão, deve-se ser muito cuidadoso. Talvez, nesse caso, o deitar na posição do cadáver pode ser bom. Se não for o caso, é possível que a prática do yoga possa ajudar a coluna. Em todo caso, apenas observe a dor como dor. Se a dor for contínua, use-a como meditação. Uma vez, quando eu estava na minha caverna, eu estava cortando lenha e o machado escapou da minha mão, no que quase cortei meu polegar fora. Não havia nada a fazer, então eu só o embrulhei em um cachecol branco, de algodão, e me sentei com ele. O que mais eu poderia fazer? Eu usei a dor como meditação e foi muito interessante. Porque, normalmente, nós pensamos na dor como uma espécie de bloco: “dor”, mas quando simplesmente relaxamos e observamos a dor, percebemos que ela tem picos e vales. E me pareceu que haviam dores graves, dores agudas, como se fosse uma orquestra, onde há trompetes, violinos, percussão; muitos elementos se reunindo para produzir uma sinfonia. E assim foi. A dor não foi apenas “dor” – foram muitas sensações. E quando sai dessa meditação, já haviam se passado horas. Foi uma experiência muito profunda de quanto nós perdemos por tentarmos evitar. Geralmente, a respiração é reconhecida como um objeto de meditação básico, bom para todos, mas, na realidade, podemos tomar qualquer coisa e usar como o foco de nossa atenção. Portanto, se estamos com dor, quero dizer, por óbvio tenta-se resolver a dor, mas se ela simplesmente está lá, contínua, então, ao invés de considera-la como obstáculo para a concentração, podemos considera-la como aliada. Chama-se isso de tomar todas as coisas como caminho. Significa carregar tudo o que acontece conosco; não levamos apenas aquelas que são propícias, mas também o que a princípio chamaríamos problemas ou obstáculos. Se podemos fazer uso de tudo o que nos acomete e transformar na nossa prática, definitivamente faramos grandes progressos. Então, eu diria para começar sua meditação primeiramente se conectando à respiração e, conforme a dor aparece, apenas gentilmente trazendo o foco para a dor, somente observando-a com um coração amável, sem aversão. E observe como ela ascende, qual sua sensação, de forma bastante aberta. Isso pode absorver sua mente de maneira bem hábil. De qualquer forma, como eu disse, em sua casa você pode apenas deitar na posição que lhe for confortável também.

P: Quanto mais eu consigo me aproximar da respiração, quanto mais eu foco, mais eu sinto que estou a controlando, de forma bem sútil, e isso acaba me cansando e é super raro eu conseguir observar sem controlar. O que você sugere?

JTP: Talvez você possa alternar o foco de sua atenção da ponta do nariz para o movimento do abdômen. Algumas vezes, especialmente por haver tanto em nossas cabeças, a respiração na ponta do nariz encerra nossa atenção na cabeça, daí essa sensação de controle. Então, possivelmente trazê-la para baixo, onde, enquanto respiramos, o abdômen se expande e contrai, pode ser útil. Apenas relaxar e permitir à respiração expandir e contrair o abdômen, consciente disso. Ainda, a qualquer um que interesse tentar meditar na posição do cadáver, enquanto deitado, o objeto da meditação seria o expandir e contrair do abdômen que, quando estamos deitados, é muito evidente. A razão pela qual você sente que está controlando é porque você não está, de fato, relaxado. É difícil comandar-se a relaxar; é uma contraindicação. Porém, tanto quanto possível, apenas se imagine deixando tudo mais ir. Tudo simplesmente partindo. Totalmente aberto e espaçoso. E então, nessa abertura ampla, quando nada importar mais, aberto e espaçoso como o céu, traga a atenção gentilmente à inspiração e à expiração. É um pouco como o parapente: você está nesse espaço vasto e espaçoso, bastante tranquilo, e no controle sob certo aspecto, pois você controla a sua mente, que está na respiração, mas ao mesmo tempo, não é hermético; é muito aberto e espaçoso enquanto você flutua por lá.

+ There are no comments

Add yours